quarta-feira, janeiro 17, 2007

SOBRE O USO DAS CÂMERAS DE VIGILÂNCIA

Jornal O Estado de São Paulo, caderno Metrópole

Quarta-feira, 27 de dezembro de 2006.

Guardas municipais agridem secretário e vereadora no centro

Confusão ocorreu na véspera de Natal, em evento para moradores de rua

Arthur Guimarães

Floriano Pesaro, secretário municipal de Desenvolvimento Social, quase foi atropelado. Fora o susto, levou ainda uma borrifada de gás pimenta nos olhos. Era o mesmo intoxicante que travou a garganta da vereadora Soninha Francine (PT) e foi lançado ao ar, entre mais de 150 moradores de rua, no domingo, véspera de Natal, no Vale do Anhangabaú, região central de São Paulo.

Mas não é apenas o fato de duas autoridades terem sido repreendidas de forma tão violenta que causa perplexidade. O evento em questão, o Natal Solidário, era autorizado pela Prefeitura e apoiado formalmente pela São Paulo Turismo (SPTuris). E os agressores eram homens da própria Guarda Civil Metropolitana (GCM), órgão de segurança do Executivo da capital.

O “campo de guerra” em que se transformou o Vale do Anhangabaú, com direito a guardas correndo com arma em punho e varando os cassetetes aleatoriamente, estragou a festa natalina dos moradores de rua da região, que esperavam pela data para ouvir um coral, participar de um show de calouros improvisado e receber uma cesta de produtos de fim de ano.

O evento foi planejado pelo Fórum da População de Rua, entidade tradicional do setor. Os lanches que seriam distribuídos, aliás, teriam sido oferecidos ao próprio efetivo da GCM, após a fuga em massa dos convidados.

CONFUSÃO

Tudo começou quando, enquanto o coral cantava, um carro de polícia abordou um morador de rua que, segundo relatos, teria sido flagrado pelas câmeras da Prefeitura colocando uma bomba em um orelhão. A revista ao tal homem, no meio da comemoração, causou indignação aos colegas. “De tanto sofrer na mão dos guardas, o pessoal da rua já reage de outra forma”, observou a vereadora Soninha.

Houve um começo de empurra-empurra e, logo, um tumulto começou na região do centro. O reforço foi chamado. Pelo menos outros sete carros surgiram prontamente no calçadão, além de algumas motos. “Não tinha comando. O reforço veio em ritmo de guerra. E esse era o Natal da própria Prefeitura”, alegou a parlamentar, que prometeu enviar um ofício à GCM pedindo explicações sobre o ocorrido.

No meio da confusão, o secretário Floriano Pesaro, que preferiu não se pronunciar sobre o assunto, chegou a ligar diretamente para o prefeito Gilberto Kassab (PFL) e para o comandante da GCM, pedindo ajuda para acalmar os guardas. Por mais irônico que pareça, até a Polícia Militar foi acionada para salvar todo mundo.

E a abordagem ao tal suspeito de colocar a bomba no orelhão foi um engano - ele foi liberado logo depois.

INVESTIGAÇÃO

O coronel Rubens Casado, comandante geral da GCM, informou que abriu apuração interna para averiguar eventuais excessos. Ele confirmou que os guardas agiram depois que uma das câmeras que fiscalizam o centro flagrou um cidadão colocando um artefato no orelhão. O rapaz teria sido encaminhado ao DP mais próximo.