terça-feira, novembro 14, 2006

O fracasso da arquitetura do controle

Affonso Orciuoli

Num intervalo de duas semanas, o Brasil se viu por duas vezes ligado à televisão, acompanhando passo a passo o desenrolar das notícias sobre o seqüestro do apresentador Sílvio Santos, no dia 30 de agosto e o atentado terrorista ao World Trade Center e ao Pentágono, no dia 11 de setembro. Ambas notícias revelam vários aspectos em comum, como o impacto que causaram na mídia, além da fragilidade da vida ante a violência e a ineficácia dos meios de vigilância.

No incidente com a família Abravanel, o que mais chamou a atenção foi a facilidade com a qual o seqüestrador conseguiu entrar na mansão do Morumbi. Contando com poucos recursos, o delinqüente foi capaz de montar tamanho alvoroço na mídia, fazendo com que o governador do estado interviesse pessoalmente. A partir deste episódio e de outros seqüestros que já são comuns na cidade, deve estar havendo, provavelmente, uma maior demanda de equipamentos e medidas de segurança em espaços públicos e principalmente privados. Há um aumento significativo dos sistemas de alarme, das portas automáticas, do número de funcionários de segurança e dos tipos de urbanizações amuralhadas de origem feudal e comuns no Brasil: os condomínios fechados.

No caso das Twin Towers do WTC nenhuma autoridade ligada às normas de segurança imaginava que poderia acontecer um atentado terrorista da forma como sucedeu. Provavelmente, a imensa cúpula geodésica sobre Manhattan, de Buckminster Fuller, será um projeto de referência para que se possa, efetivamente, construir uma grande borbulha. Com ela, não apenas se protegeria a cidade da radiação nuclear, como também se controlaria a entrada de toda persona non grata por meios terrestre, marítimo ou aéreo.


Capa do livro "1984", de George Orwell, 1949


Em ambos os episódios, verifica-se a fragilidade dos sistemas de segurança, principalmente em seus aspectos tecnológicos. Observa-se também o fracasso da marcação do limite, do muro, da fronteira e dos meios de vigilância. Como conseqüência, viveremos num mundo cada vez mais dotado de infra-estruturas de controle.

A opinião pública é tomada pelo medo, exige proteção, imediatismo. Disporemos de tantos muros, câmaras, detetores, celulares, gps, armas, polícia, carros blindados e helicópteros? Responderá a arquitetura e a cidade com mais delegacias, prisões, grades, condomínios fechados, câmaras e outros artefatos de controle?

Diz-se aqui na Europa que não serão medidos os esforços para aumentar a segurança dos espaços públicos. Se antes desperdiçávamos em um aeroporto uma hora em um desembarque internacional, agora o tempo de desembarque, se estima, será de três horas. Claro, num ambiente totalmente civilizado, com ar condicionado, entretenimento e lojas. Enquanto isso, se registram nossos objetos, corpos e, acima de tudo, nosso passado.



Buckminster Fuller, projeto para uma cúpula geodésica sobre Manhattam, 1962


No caso da cidade de São Paulo foi visível como as autoridades, a mídia, o secretário de segurança pública e o governador do estado anunciaram que deveriam tomar providências para reforçar a presença dos instrumentos de controle e punição. Shopping Centers e condomínios fechados se proliferam, numa ambiência em que o espaço público desaparece por completo.

Espera-se, portanto, um aumento significativo dos recursos tecnológicos para a segurança e a proteção, para o controle e a vigilância das grandes cidades, dos aeroportos, das fronteiras, dos condomínios, das mansões. Os gastos que se estão estimando na Europa são altíssimos, assim como o dispêndio de energia e o contingente de pessoal. Tempo e paciência são incalculáveis. Estes fatos conduzem a edifícios e espaços públicos cada vez mais munidos de sistemas de segurança.

Tudo indica que o controle e a vigilância de muitos aspectos do cotidiano, em suas escalas local, global e digital, se farão cada vez mais presentes. A arquitetura se coloca a serviço da sociedade do controle. A descrição aterrorizante da vida sob a vigilância constante do Big Brother já não é ficção.


Atentado ao World Trade Center, Nova York, 11 de setembro de 2001


em [vitruvius]